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Revolta e perplexidade: lutadoras de MMA revelam assédio na internet

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Bethe Correia afirma que recebe vídeos obscenos dos torcedores diariamente, e Gadelha cita fotos. Poliana Botelho critica falta de educação e desrespeito nas ruas!

Bethe Correia é ativa nas redes sociais. A lutadora, uma das mais conhecidas do Brasil, recebe elogio dos fãs, tira dúvida dos torcedores, dá conselhos, posta frases motivacionais e mostra seu trabalho como profissional do esporte. É isso que os 117 mil seguidores da paraibana no Instagram conseguem visualizar. O que só a atleta tem acesso em seu perfil, porém, é assustador: ela recebe todos os dias vídeos obscenos, frases desrespeitosas e ofensas no privado. É um assédio que atinge não só a ela, mas também a outras atletas do Ultimate. Nem mesmo o fato de serem lutadoras impede a aproximação, mais forte no mundo virtual devido a um suposto anonimato.

Conhecida em diversos países – especialmente pela rivalidade criada com Ronda Rousey, ex-campeã do UFC -, Bethe explica que o assédio maior é de estrangeiros. Ela conta, em entrevista ao Combate.com, que muitos enviam vídeos em que se masturbam assistindo às suas lutas de MMA.

– É a primeira vez que alguém me pergunta sobre esse assunto. Eu passo por isso todos os dias, é bem complicado. No Brasil temos mais aquelas “cantadas de pedreiro”, mas nas redes sociais é todo dia, principalmente de pessoas do exterior. Eles são mais malucos, não sei nem como nomeá-los. É assédio pelo Instagram e pelo Snapchat, de sete a dez vídeos por dia. Os caras mandam vídeos se masturbando com fotos minhas. Às vezes, chegam ao cúmulo de se masturbarem vendo a minha luta ao mesmo tempo, sendo que ali estou trabalhando, praticando um esporte. Eles se excitam e mandam isso individualmente. Eu acho que tem muito homem que tem fetiche em lutadora de MMA. São homens que têm fantasia de transar com uma lutadora. Bloqueio pela inconveniência, mas sempre tem um tarado novo.

Apesar de pessoalmente ter passado por poucas situações desta natureza, Bethe recorda o dia em que ficou constrangida perto de sua casa anos atrás e afirma que procura ignorar quando vê que poderá ficar em uma situação embaraçosa.

– Uma vez, perto da minha casa no Brasil, um cara de moto botou a genitália para fora e foi embora. Eu já passei por situações complicadas, mas virtualmente eles são mais corajosos. Espero que não passe daí. Sei defesa pessoal e teria que usar, quebrar um braço, apagar o cara. A repercussão é grande. Há propostas indecentes, pessoas que querem segurar a força em festa. Não sou de briga, evito, saio de perto, corto mesmo. Tem homem que confunde simpatia com liberdade. Ignorar é um caminho, não dá para dar conta de tudo. É questão de conscientização. Fico feliz em ver campanhas na TV em prol das mulheres. Eu abracei a causa “a culpa não é sua”. Andar de roupa curta ou biquíni não dá liberdade para ninguém agir assim. Cada um é dono do seu corpo.

Bethe, que costuma ser atenciosa com os fãs, prega o respeito e explica que existe uma grande diferença entre elogios e assédio. Ela revela que tem medo de encontrar os agressores, por não saber do que eles são capazes.

– Toda mulher gosta de receber elogios, saber que é bonita, atraente. Isso é até certo ponto, quando passa, vira falta de respeito, chego a me envergonhar por essas atitudes. Há fãs apaixonados, fui uma adolescente apaixonada por vários artistas, mas o que fazem é criminoso, não sei o que podem fazer se me encontrarem sozinha na rua. Assusta um pouco mandarem mensagem falando que não conseguem se concentrar nos meus golpes porque ficam obcecados pelo meu corpo. É falta de respeito como mulher e como lutadora.

Próxima desafiante ao cinturão peso-palha do Ultimate, no próximo dia 8, contra Joanna Jedrzejczyk, Claudinha Gadelha é mais popular que Bethe Correia na internet. A potiguar possui 247 mil seguidores no Instagram e passa pelas mesmas situações que a compatriota.

– Pessoalmente, nunca aconteceu de chegar um cara e fazer alguma coisa, mas nas redes sociais é o tempo inteiro. Recebemos mensagens não só dos fãs, mas dos tarados o tempo todo. É muito chato, inclusive, recebo mensagens de homens falando assim: “Tenho fetiche de você me bater”. Eu acho bem estranho. Tem homem que manda foto do “negócio” lá. Tem uns caras sem noção, que fazem coisas que incomodam. Tento relevar. Quando vejo que não é nada importante, tento nem ler, mas acontece o tempo todo.

Apesar de medir apenas 1,60m, Gadelha acredita que sua aparência de lutadora contribui para que os homens se engracem apenas nas redes sociais.

– Eu acho que sim (evitam). Temos o porte físico atlético, isso evita que falem qualquer gracinha. Depois que virei lutadora não aconteceu mais comigo. Espero que não aconteça, porque sei que vou ficar muito chateada e posso até dar um soco na cara de um.

Lutadora do peso-galo do Ultimate, Jéssica Bate-Estaca também garante que os comentários maldosos, feitos pessoalmente, diminuíram depois que ela se tornou uma profissional do MMA. A paranaense pede para não ser tratada como objeto sexual.

– Antes da luta, mais nova, a galera passava e falava: “Ô, gostosa, está com um bundão!” Depois que comecei a lutar não sofri assédio, mas nas redes sociais sempre sofremos. Levo como se fosse carinho dos fãs, mas muita gente manda mensagem falando que quer casar, o que levo como elogio, falam que tenho um sorriso lindo. Assédio eu nunca sofri depois de adulta, as pessoas dosam um pouco. Precisamos romper essas barreiras e mostrar para galera que não somos objetos sexuais, somos mulheres, temos sentimentos, coração. As pessoas precisam parar e pensar antes de falar certas coisas, gesticular e se expressar para não magoar. É complicado.

Ex-campeã do XFC e atualmente no Ultimate, Poliana Botelho, do alto de seus 1,73m, chama a atenção pelas ruas. Bem como as demais, a integrante da Nova União procura ignorar os comentários maldosos para evitar problemas.

– Você passa na rua de short e ouve: “Que linda, que gostosa”. É algo bem escroto, bruto, ignorante. A vontade é de responder, mas finjo que não escutei, passo batida e não falo nada. É melhor assim para não caçar confusão. É melhor ficar quieto do que falar alguma coisa. Toda mulher passa por isso. É uma falta de respeito a maneira como os homens acabam falando. Há maneiras e maneiras de falar. Tem elogio e tem quem dê em cima. A maioria é de uma forma mais escrota, faltando com o respeito.

Poliana Botelho critica ainda os comentários deixados pelos usuários na internet, ressaltando que não é apenas nas redes sociais que as lutadoras são obrigadas a se deparar com a falta de escrúpulos dos internautas.

– Na rede social é o que mais tem. Parece que vamos nos acostumando e não tem mais tanta importância assim. Quando ganhei o cinturão do XFC, postei uma foto com o cinturão na internet. Eu nem tinha reparado, estava com a perna aberta e teve vários comentários falando sobre isso. Foram várias coisas escrotas, não sei nem dizer o que é, mas coisa baixa. Foi ridículo! Eu estava com a roupa da luta, normal, mas é maldade mesmo a forma com que falam. É falta de educação também.



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